Análise real/PBO

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Todo subconjunto não-vazio A⊂ℕ possui um elemento mínimo, ou seja, se A⊂ℕ,A≠∅,logo∃n∈A,talquen<m,∀m∈A−{n}.

Prova
  • Devemos mostrar o complementar de A em relação ao ℕ assim B⊂ℕ−A
    • Tomemos um subconjunto ℕ : B formado pelos elementos que não estão em A, ou seja, B={x∈ℕ/x∉A}.
  • a quem pertence o elemento 1
    • Se 1∈A o teorema está demonstrado, pois 1 é o menor elemento do ℕ.
    • Se 1∉A, logo 1∈B
  • O conjunto In
    • Agora tomemos um subconjunto de B, chamado In={1,2,...n} onde n é o maior natural tal que aconteça isso, assim 1∉A,2∉A,...,n∉A
  • mostrar que n+1∈A
    • Pela construção do conjunto In, temos que n∈In. Se n+1∈B, teríamos n+1∈In e logo In+1. Como não faz sentido, logo n+1∉B, portanto n+1∈A
  • Devemos mostrar que n+1 é o menor elemento de A
    • Como todos os antecessores de n+1 são os elementos de In, temos que n+1 é o menor elemento de A, pois os elementos menores que n+1 estão em B

Teorema (Boa Ordem = Indução)

Vale o Princípio da Boa Ordem se, e somente se, vale o Princípio da Indução.

Demonstração
  • Suponha válido o Princípio da Boa Ordem. Seja A⊂ℕ satisfazendo as propriedades do princípio da indução.
    • Suponhamos, por absurdo, que A≠ℕ. Isto significa que existe algum elemento de ℕ que não pertence a A e, portanto, o conjunto B=∁ℕA⊂ℕ é não vazio.
    • Pelo Princípio da Boa Ordem, B possui um elemento mínimo m∈B. Com certeza m > 1, pois como 1∈A⇒1∉AC=B. Assim, m−1 é um natural menor que m.
    • Pela minimalidade de m, temos que m−1∉B e portanto m−1∈A. Pelo 2ª propriedade do princípio da indução, concluímos que m=(m−1)+1∈A, o que é um absurdo.
  • Suponha válido o Princípio da Indução. Seja B⊂ℕ não vazio.
    • Suponhamos por absurdo que B não possua elemento mínimo. Em particular, 1∉B (senão 1 seria elemento mínimo de B). Seja A={n∈N/n<m,∀m∈B}.
    • Observamos inicialmente que A∩B=∅. De fato, se A∩B≠∅, então existiria n∈A∩B, ou seja, n < n.
      • Tendo n∈A temos também n < m qualquer que seja m∈B, em particular, tomando m=n∈B obtemos n < n o que é absurdo. Concluímos que A∩B=∅.
    • Mostraremos a seguir que A=ℕ. Vejamos agora que isto é suficiente para concluir a demonstração. Neste caso temos ∅=A∩B=ℕ∩B=B contradizendo a hipótese B≠∅.
    • Mostremos, por indução, que A=ℕ. Já sabemos que 1∉B e portanto 1<m qualquer que seja m∈B, ou seja, 1∈A. Tomemos n∈A. Por definição de A temos n<m qualquer que seja m∈B, logo n+1≤m para todo m∈B. Se n+1∈B então n+1 é um elemento mínimo de B. Como, por hipótese, B não possui elemento mínimo, segue que n+1∉B e portanto n+1<m para qualquer m∈B. Concluímos que n+1∈A. Pelo Princípio da Indução A=ℕ.
Nota: Na Teoria axiomática dos Conjuntos de Zermelo-Fraenkel [sistema denotado como "ZF sem adição de axiomas extras"], a generalização deste princípio acima é equivalente para o Axioma da Escolha, criado em 1904 pelo matemático alemão Ernst Zermelo. Este é considerado um dos axiomas mais importantes da história da Matemática, apesar de suas consequências não-construtivas e controversas (vide o Paradoxo de Banach-Tarski, entre outros).

Exemplo 1

Mostre que, dados a,b∈ℕ,∃c∈(ℕ∪{0}),talqueb⋅c≤a<b⋅(c+1).
  • Dados a,b∈ℕ, pela lei da tricotomia, temos três possibilidades a<b,a=boub<a.
    • Caso a<b, tome c=0, assim b⋅0≤a<b⋅(0+1)⇒0≤a<b
    • Caso a=b, tome c=1, assim b⋅1≤a<b⋅(1+1)⇒b≤a<2b
    • Caso b<a. Tome A={n∈ℕ;b⋅n>a}⊂ℕ. A não é vazio, pois b⋅(a+1)>a.
      • Pelo Princípio da Boa Ordem (P.B.O.), ℕ⊃A≠∅⇒∃m∈A;m=min(A)⇒b⋅(m−1)<a<b⋅m.

Exemplo 2

Se n∈ℕ,∃p∈ℕ,talquen<p<n+1.

  • Considere A={n∈ℕ:p<n}≠∅,A⊂ℕ. Pelo PBO, ∃m∈ℕ,talquem=min(A)⇒m=s(p)⇒p+1=m⇒p=m−1